Radiologia Brasileira - Publicação Científica Oficial do Colégio Brasileiro de Radiologia

AMB - Associação Médica Brasileira CNA - Comissão Nacional de Acreditação
Idioma/Language: Português Inglês

Vol. 53 nº 3 - Maio / Jun.  of 2020

AVANÇOS EM RADIOLOGIA
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Page(s) 171 to 172



Acesso transglúteo para punção percutânea de abscesso prostático guiada por tomografia computadorizada

Autho(rs): Rômulo Florêncio Tristão Santos1,a; Reinaldo Santos Morais Neto1,b; Fábio Galvão Vidal1,c; Luiz Augusto Morelli Said2,d; Thiago Franchi Nunes1,e

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INTRODUÇÃO

O abscesso prostático é uma ocorrência clínica rara, que pode resultar em complicações graves como urossepse e morte se não houver diagnóstico e tratamento adequados(1). Uma vez estabelecido o diagnóstico, a administração de antibióticos, de dreno perineal aberto ou a ressecção transuretral do abscesso prostático são habitualmente realizadas. Atualmente, procedimentos minimamente invasivos, como aspiração por agulha guiada por métodos de imagem, estão bem estabelecidos dentro da prática radiológica intervencionista e são preferíveis aos métodos convencionais, com baixo índice de complicações e bons resultados terapêuticos(1–8).

As drenagens percutâneas de abscessos pélvicos são desafiadoras em razão da interposição de grande número de estruturas anatômicas. Consequentemente, várias rotas de acesso e técnicas de drenagem foram descritas(2,9). Para que o procedimento seja bem sucedido, é fundamental o planejamento da via de acesso, que necessita de um conhecimento detalhado da anatomia pélvica. As principais vias para a abordagem das lesões pélvicas profundas são: transabdominais (anterior e lateral), extraperitonial anterolateral, transvaginal, transretal e transglútea(9).

No acesso transglúteo o paciente geralmente é posicionado em decúbito ventral ou em decúbito lateral. Esta técnica também é denominada de transciática, pois a agulha irá passar pelo forame isquiático maior. Quando possível, a agulha irá transfixar o ligamento sacroespinhoso, localizado abaixo do nível do músculo piriforme, para evitar a lesão dos vasos glúteos e do plexo sacral que estão localizados anteriormente ao músculo. As lesões elegíveis para o emprego dessa técnica são as posteriores à bexiga urinária e massas anexiais(9,10). Este acesso tem as vantagens de evitar a transfixação do peritônio, minimizar riscos de lesões a intestino, bexiga e vasos ilíacos, e permitir acesso estável à agulha que irá transfixar uma massa muscular estática, isenta dos movimentos respiratórios da parede abdominal. A desvantagem recai no posicionamento pouco confortável do decúbito ventral, trazendo mais dificuldades a respiração e manejo anestésico.


PROCEDIMENTO

A revisão dos exames de imagem antes do procedimento é de suma importância para o sucesso técnico, com base na melhor definição anatômica, identificação do abscesso prostático e planejamento de um trajeto seguro para a agulha de punção.

O acesso transglúteo realizado com o paciente em decúbito ventral (Figura 1), anestesia local e orientação tomográfica permite a visualização da agulha de aspiração 17G desde sua inserção na pele até a cavidade pélvica (Figura 2). A agulha irá passar pelo forame isquiático maior e transfixar o ligamento sacroespinhoso, localizado abaixo do nível do músculo piriforme, para evitar a lesão dos vasos glúteos e do plexo sacral que estão localizados anteriormente ao músculo(9). Aspiração do conteúdo abscedido, lavagem com soro fisiológico 0,9% – 50 mL utilizando seringa Luer Lock de 10 mL – e antibioticoterapia apresentam alta taxa de sucesso (Figura 3) e poucas complicações, comparadas a ressecção transuretral do abscesso e inserção perineal de cateter de grande calibre com drenagem a longo prazo para controlar a infecção residual; entretanto, é uma técnica pouco difundida(2,9–11). As vantagens desse procedimento incluem menor potencial de complicações e ser realizado sob anestesia local e sedação, minimizando os riscos de adversidades pós-anestesia geral, principalmente em pacientes graves, além da possibilidade de o procedimento ser repetido em caso de recidiva. Deve, idealmente, ser realizada por radiologistas intervencionistas com treinamento em procedimentos percutâneos(9–11).


Figura 1. Tomografia computadorizada de pelve pós-contraste, aquisição axial, mostrando abscesso prostático.


Figura 2. Acesso transglúteo guiado por tomografia computadorizada realizado com o paciente em decúbito ventral (A) e aspiração de conteúdo purulento (B).


Figura 3. Tomografia computadorizada realizada quatro semanas após o tratamento, sem coleções prostáticas residuais ou recidivadas.



REFERÊNCIAS

1. Jang K, Lee DH, Lee SH, et al. Treatment of prostatic abscess: case collection and comparison of treatment methods. Korean J Urol. 2012;53:860–4.

2. Garcia RG, Macedo Filho CL, Maurano A, et al. Image-guided percutaneous procedures in deep pelvic sites: review of the main approaches. Radiol Bras. 2008;41:343–8.

3. Schiavon LHO, Tyng CJ, Travesso DJ, et al. Computed tomographyguided percutaneous biopsy of abdominal lesions: indications, techniques, results, and complications. Radiol Bras. 2018;51:141–6.

4. Carneiro GAC, Arantes Pereira FP, Lopes FPPL, et al. Magnetic resonance imaging-guided vacuum-assisted breast biopsy: experience and preliminary results of 205 procedures. Radiol Bras. 2018; 51:351–7.

5. Tibana TK, Santos RFT, Arão Filho A, et al. Detection of additional primary malignancies: the role of CT and PET/CT combined with multiple percutaneous biopsy. Radiol Bras. 2019;52:166–71.

6. Tibana TK, Grubert RM, Camilo DMR, et al. Computed tomography- guided puncture using a mobile application for a motion sensor- equipped smartphone. Radiol Bras. 2019;52:245–6.

7. Nunes TF, Tibana TK, Santos RFT, et al. Percutaneous insertion of bilateral double J stent. Radiol Bras. 2019;52:104–5.

8. Tibana TK, Grubert RM, Santos RFT, et al. Percutaneous nephrostomy versus antegrade double-J stent placement in the treatment of malignant obstructive uropathy: a cost-effectiveness analysis from the perspective of the Brazilian public health care system. Radiol Bras. 2019;52:305–11.

9. Kuligowska E, Keller E, Ferrucci JT. Treatment of pelvic abscesses: value of one-step sonographically guided transrectal needle aspiration and lavage. AJR Am J Roentgenol. 1995;164:201–6.

10. Maher MM, Gervais DA, Kalra MK, et al. The inaccessible or undrainable abscess: how to drain it. Radiographics. 2004;24:717–35.

11. Gee MS, Kim JY, Gervais DA, et al. Management of abdominal and pelvic abscesses that persist despite satisfactory percutaneous drainage catheter placement. AJR Am J Roentgenol. 2010;194:815–20.










1. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Campo Grande, MS, Brasil
2. Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS), Campo Grande, MS, Brasil

a. https://orcid.org/0000-0002-8679-7369
b. https://orcid.org/0000-0001-8278-7449
c. https://orcid.org/0000-0002-9956-7626
d. https://orcid.org/0000-0001-6681-5382
e. https://orcid.org/0000-0003-0006-3725

Correspondência:

Dr. Thiago Franchi Nunes
Avenida Senador Filinto Müller, 355, Vila Ipiranga
Campo Grande, MS, Brasil, 79080-190
E-mail: thiagofranchinunes@gmail.com

Recebido para publicação em 3/4/2019
Aceito, após revisão, em 13/6/2019

Data de publicação: 02/04/2020
 
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