Radiologia Brasileira - Publicação Científica Oficial do Colégio Brasileiro de Radiologia

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Idioma/Language: Português Inglês

Vol. 52 nº 5 - Set. / Out.  of 2019

CARTAS AO EDITOR
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Page(s) 343 to 344



Alterações hepáticas pós-tratamento com oxaliplatina

Autho(rs): Leila Pereira Tenório1; Michelle Ferraz Oliveira Miranda2; Marcony Queiroz Andrade3; Marcelo Antônio Nobrega Araujo4

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Sr. Editor,

Paciente do sexo feminino, 54 anos, tratada com cirurgia e quimioterapia para câncer de cólon, tendo sido utilizado o esquema com fluorouracil, leucovorin e oxaliplatina. Os exames de imagem pré-tratamento demonstravam fígado de aspecto normal, sem indício de lesões focais. Nos exames de controle pós-tratamento passou-se a observar discreta esplenomegalia e fígado com contornos levemente lobulados. Também houve o surgimento de alguns nódulos hepáticos, em sua maioria caracterizados por isossinal em T1 e T2, com realce arterial e persistente na fase hepatobiliar, após injeção intravenosa de contraste hepatoespecífico, sugerindo lesões tipo hiperplasia nodular focal (HNF-like) (Figura 1).


Figura 1. Imagens de ressonância magnética nas ponderações T1 com supressão de gordura pré-contraste (A), T2 (B), T1 pós-contraste na fase arterial (C) e na fase hepatobiliar (D) mostrando discreta esplenomegalia e nódulos hepáticos com isossinal em T1 e T2, realce arterial pós-contraste e com realce persistente na fase hepatobiliar, sugerindo lesões tipo HNF-like. Notam-se ainda outras áreas nodulares com captação na fase hepatobiliar, também sugerindo lesões benignas.



O carcinoma colorretal é o terceiro câncer mais comum no mundo, sendo a metástase hepática frequente e ocorrendo em 40–50% dos pacientes. Existem diferentes esquemas de tratamento quimioterápico para esse tipo de neoplasia, diversos deles utilizando oxaliplatina(1).

Diversas classes de quimioterápicos têm sido associadas a injúrias hepáticas, como esteatose, esteato-hepatite, síndrome de obstrução sinusoidal, hepatite aguda e necrose hepática(2). Tratamentos à base de oxaliplatina vêm sendo mais frequentemente relacionados a síndrome de obstrução sinusoidal e hiperplasia nodular regenerativa(2,3).

A síndrome de obstrução sinusoidal, previamente denominada de doença hepática veno-oclusiva, é causada pela deposição de material fibrótico em pequenos ramos das veias hepáticas, promovendo obstrução e dilatação sinusoidal, com congestão, fibrose perissinusoidal e lesão hepatocelular. Essa condição pode levar a hepatoesplenomegalia e hipertensão portal.

Hiperplasia nodular regenerativa são lesões habitualmente milimétricas, diagnosticadas em estudos anatomopatológicos, cuja patogênese ainda não foi bem estabelecida, acreditando-se estar relacionadas a distúrbios vasculares intra-hepáticos promovendo áreas atróficas hipoperfundidas adjacentes a outras áreas regenerativas com hiperperfusão, sendo considerada por alguns autores como estágio final da lesão vascular induzida por drogas quimioterápicas(3,4).

Nódulos macroscópicos com características radiológicas e anatomopatológicas idênticas a HNF-like têm sido relacionados a diversas condições hepáticas(5), como cirrose(6), alterações vasculares como síndrome de Budd-Chiari(6), e mais recentemente a tratamento quimioterápico baseado em oxaliplatina(7,8), como no caso ora relatado.

Lesões hepáticas focais que surgem em exames de imagem durante o acompanhamento de pacientes oncológicos nos obriga a fazer uma análise cuidadosa, pela possibilidade de se tratar de lesão neoplásica secundária. As metástases dos carcinomas de cólon costumam ser hipovascularizadas e com padrão de hipocaptação na fase hepatobiliar.

Conhecer o tipo histológico da neoplasia primária, bem como o padrão radiológico da metástase dessas lesões, é fundamental para o diagnóstico correto e adequada orientação clínica.

O entendimento das alterações hepáticas relacionadas ao tratamento quimioterápico, especialmente a possibilidade de surgimento de lesões hipervasculares tipo HNF-like no contexto clínico pós-tratamento com oxaliplatina, poderá facilitar o diagnóstico dessas lesões e evitar procedimentos mais invasivos no acompanhamento dos pacientes.


REFERÊNCIAS

1. Fonseca GM, Herman P, Faraj SF, et al. Pathological factors and prognosis of resected liver metastases of colorectal carcinoma: implications and proposal for a pathological reporting protocol. Histopathology. 2018; 72:377–90.

2. Sharma A, Houshyar R, Bhosale P, et al. Chemotherapy induced liver abnormalities: an imaging perspective. Clin Mol Hepatol. 2014;20:317–26.

3. Rubbia-Brandt L, Audard V, Sartoretti P, et al. Severe hepatic sinusoidal obstruction associated with oxaliplatin-based chemotherapy in patients with metastatic colorectal cancer. Ann Oncol. 2004;15:460–6.

4. Ames JT, Federle MP, Chopra K. Distinguishing clinical and imaging features of nodular regenerative hyperplasia and large regenerative nodules of the liver. Clin Radiol. 2009;64:1190–5.

5. Kim MJ, Rhee HJ, Jeong HT. Hyperintense lesions on gadoxetate disodium-enhanced hepatobiliary phase imaging. AJR Am J Roentgenol. 2012;199:W575–86.

6. Choi JY, Lee HC, Yim JH, et al. Focal nodular hyperplasia or focal nodular hyperplasia-like lesions of the liver: a special emphasis on diagnosis. J Gastroenterol Hepatol. 2011;26:1004–9.

7. Donadon M, Di Tommaso L, Roncalli M, et al. Multiple focal nodular hyperplasias induced by oxaliplatin-based chemotherapy. World J Hepatol. 2013;5:340–4.

8. Shlomai A, Tobar A, Benjaminov O. Multiple liver lesions after oxaliplatin-based chemotherapy for colorectal cancer. Gastroenterology. 2015; 149:e1–3.










1. Hospital Geral Roberto Santos, Salvador, BA, Brasil; https://orcid.org/0000-0003-2006-0265
2. Hospital Geral Roberto Santos, Salvador, BA, Brasil; https://orcid.org/0000-0002-7073-4697
3. Hospital Aliança, Salvador, BA, Brasil; https://orcid.org/0000-0002-2136-5688
4. Hospital Geral Roberto Santos, Salvador, BA, Brasil; https://orcid.org/0000-0002-4929-5845

Correspondência:
Dra. Leila Pereira Tenório
Hospital Geral Roberto Santos – Radiologia
Rua Direta do Saboeiro, s/nº, Cabula
Salvador, BA, Brasil, 41180-780
E-mail: leilatenorio@hotmail.com

Recebido para publicação em 27/9/2017.
Aceito, após revisão, em 12/12/2017.
 
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