Radiologia Brasileira - Publicação Científica Oficial do Colégio Brasileiro de Radiologia

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Idioma/Language: Português Inglês

Vol. 51 nº 6 - Nov. / Dez.  of 2018

CARTAS AO EDITOR
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Page(s) 411 to 412



Endometrioma roto: principais achados de imagem

Autho(rs): Eduardo Kaiser U. N. Fonseca1,a; Bruna Bringel Bastos2,b; Fernando Ide Yamauchi3,c; Ronaldo Hueb Baroni4,d

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Sr. Editor,

Mulher de 28 anos, queixando-se de dor pélvica súbita há 12 horas, com sinais de peritonite ao exame físico. Seus exames laboratoriais demonstraram discreta anemia. Foram realizadas ultrassonografia transvaginal (USTV) (Figura 1A) e ressonância magnética (RM) (Figuras 1B e 1C) da pelve. A paciente foi submetida a laparoscopia, que confirmou a presença de endometriomas ovarianos bilaterais, destacando-se um roto à direita (Figura 1D).


Figura 1. USTV demonstrando formação cística com contornos irregulares e conteúdo hipoecogênico no ovário direito. B,C: Imagens de RM pélvica mostrando formações com alto sinal em T1 (B) e baixo sinal em T2 – shading (C, seta) em ambos os ovários, com contornos irregulares à direita. Conteúdo líquido na cavidade pélvica com alto sinal na imagem ponderada em T1 (B), representando hemoperitônio. O conjunto de achados é sugestivo de endometriomas bilaterais, com sinais de ruptura à direita. D: Imagem obtida em acesso laparoscópico da cavidade pélvica mostrando sangramento ativo (seta) no ovário direito e conteúdo hemático coletado no recesso pélvico (estrela), achados em correspondência aos achados vistos na USTV e na RM.



O diagnóstico presuntivo de endometriose é realizado com base em história clínica compatível e alteração de exames laboratoriais, dentre eles a elevação do CA-125, marcador que, embora inespecífico, costuma estar elevado nessa doença(1). Apesar do importante papel dos exames de imagem, notadamente da USTV e da RM da pelve no diagnóstico e no estadiamento da endometriose, deve-se salientar que o padrão ouro para o diagnóstico definitivo ainda é a laparoscopia(1,2).

Os ovários estão entre os locais mais comumente acometidos pela endometriose (20% a 40% de casos). Endometriomas são cistos de paredes espessas, com conteúdo escuro e espesso, em decorrência de produtos hemáticos degenerados. Eventualmente, pode-se observar nível líquido-líquido, representando sangramentos de diferentes cronologias, conferindo-lhes a aparência típica de “cistos de chocolate”, aparência macroscópica que foi transposta para a imagem(3). São bilaterais em cerca de 50% dos casos(2,4).

A ruptura de um endometrioma é evento raro, com incidência estimada inferior a 3% para mulheres em idade fértil sabidamente portadoras de endometriomas(5). Essa situação ocorre mais frequentemente durante a gravidez, em função da estimulação hormonal de elementos estromais endometriais(2) e em lesões de maiores dimensões (≥ 6,0 cm)(6).

O aspecto de imagem é de lesão cística ovariana com conteúdo heterogêneo, contornos irregulares e descontinuidade parietal, em associação a hemoperitônio, que pode ser visto como conteúdo líquido heterogêneo na US e como coleção com hipersinal em imagens ponderadas em T1 na RM. No cenário de emergência, sua apresentação pode mimetizar outras condições ginecológicas agudas, como cistos de corpo lúteo, gestação ectópica e até mesmo hemoperitônio espontâneo(7,8). Além disso, a ruptura de endometriomas pode elevar significativamente os níveis séricos de CA-125, mimetizando também neoplasias epiteliais ovarianas(9). No entanto, história e/ou exames prévios demonstrando endometriomas ou estes associados a conteúdo hemático peritonial nos estudo de imagem de emergência devem nos lembrar da possibilidade de ruptura espontânea.

A importância do diagnóstico pré-operatório é auxiliar na decisão do tratamento. Em primeiro lugar, embora alguns casos mais brandos possam ser manejados de forma conservadora, existe uma tendência de exploração cirúrgica precoce, tendo em vista efeitos indesejáveis a longo prazo do fluido endometriótico na cavidade peritonial, como aderências, dor pélvica e infertilidade(6). Em segundo lugar, o diagnóstico presuntivo de endometrioma roto, em detrimento a neoplasias ovarianas, auxilia a decisão do cirurgião para exploração laparoscópica com maior segurança.


REFERÊNCIAS

1. Siegelman ES, Oliver ER. MR imaging of endometriosis: ten imaging pearls. Radiographics. 2012;32:1675-91.

2. Chamié LP, Blasbalg R, Pereira RM, et al. Findings of pelvic endometriosis at transvaginal US, MR imaging, and laparoscopy. Radiographics. 2011;31:E77-100.

3. Bastos BB, Fonseca EKUN, Yamauchi FI, et al. Chocolate cyst with ground glass appearance in endometriomas. Abdom Radiol (NY). 2017;42:2957-8.

4. Togashi K, Nishimura K, Kimura I, et al. Endometrial cysts: diagnosis with MR imaging. Radiology. 1991;180:73-8.

5. Evangelinakis N, Grammatikakis I, Salamalekis G, et al. Prevalence of acute hemoperitoneum in patients with endometriotic ovarian cysts: a 7-year retrospective study. Clin Exp Obstet Gynecol. 2009;36:254-5.

6. Huang YH, Hsieh CL, Shiau CS, et al. Suitable timing of surgical intervention for ruptured ovarian endometrioma. Taiwan J Obstet Gynecol. 2014;53:220-3.

7. Lucey BC, Varghese JC, Anderson SW, et al. Spontaneous hemoperitoneum: a bloody mess. Emerg Radiol. 2007;14:65-75.

8. Brown DL, Dudiak KM, Laing FC, et al. Adnexal masses: US characterization and reporting. Radiology: 2010;254:342-54.

9. Rani AK, Kapoor D. Ruptured ovarian endometrioma with an extreme rise in serum CA 125 level - a case report: ovarian endometrioma with very high CA-125 level. Gynecol Oncol Case Rep. 2012;2:100-1.










1. Hospital Israelita Albert Einstein, São Paulo, SP, Brasil; a. https://orcid.org/0000-0002-0233-0041
2. Hospital Israelita Albert Einstein, São Paulo, SP, Brasil; b. https://orcid.org/0000-0001-9875-8458
3. Hospital Israelita Albert Einstein, São Paulo, SP, Brasil; c. https://orcid.org/0000-0002-4633-3711
4. Hospital Israelita Albert Einstein, São Paulo, SP, Brasil; d. https://orcid.org/0000-0001-8762-0875


Correspondência:
Dr. Fernando Ide Yamauchi
Hospital Israelita Albert Einstein - Departamento de Imagem
Avenida Albert Einstein, 627, Jardim Leonor
São Paulo, SP, Brasil, 05652-900
E-mail: fernando.yamauchi@einstein.br
 
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