Radiologia Brasileira - Publicação Científica Oficial do Colégio Brasileiro de Radiologia

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Idioma/Language: Português Inglês

Vol. 51 nº 6 - Nov. / Dez.  of 2018

CARTAS AO EDITOR
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Page(s) 410 to 411



Agenesia da artéria carótida interna: uma anomalia rara

Autho(rs): Eduarda Lemes Dias1; Luiz Gonzaga da Silveira Filho2; Arthur de Freitas Ferreira3

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Sr. Editor,

Mulher de 77 anos, com história pregressa de episódios de infartos cerebrais, evoluiu há sete dias com disfagia e disartria após queda da própria altura, sem perda de consciência. A tomografia computadorizada (TC) de crânio mostrou ausência de infarto isquêmico agudo, áreas de encefalomalácia, microangiopatia moderada, redução volumétrica encefálica e dilatação do sistema ventricular. Como achado adicional observou-se ausência do canal carotídeo direito (Figuras 1A e 1B). Foi solicitado ultrassom Doppler de artérias carótidas, que demonstrou hipoplasia da artéria carótida comum esquerda e má definição de sua bifurcação. Angiotomografia arterial do crânio e do pescoço caracterizou agenesia da artéria carótida interna (ACI) esquerda, ausência do canal carotídeo e hipoplasia da artéria carótida comum ipsilaterais (Figuras 1C e 1D). O fluxo sanguíneo do hemisfério cerebral esquerdo originava-se de circulação colateral pelas artérias comunicantes posterior esquerda e anterior.


Figura 1. TC de crânio, cortes axiais (A,B), demonstrando canal carotídeo direito normal (setas) e ausência do canal carotídeo esquerdo. Angiotomografia arterial de pescoço, cortes coronal (C) e axial (D), demonstrando hipoplasia da artéria carótida comum esquerda (setas).



Agenesia da ACI é uma anomalia congênita rara, relatada em menos de 0,01% da população. O espectro dos achados pode variar de agenesia (ausência completa da ACI e do canal carotídeo), aplasia (ausência de partes da ACI e do canal carotídeo) ou hipoplasia (ACI e canal carotídeo afilados)(1-4).

A maioria dos casos de agenesia unilateral é assintomática, devido a circulação colateral que se forma desde o período fetal. São relatados três padrões de circulação colateral. O mais comum, e semelhante ao caso relatado, é o fetal, no qual a artéria cerebral anterior do lado afetado é suprida pela ACI contralateral via artéria comunicante anterior, e a artéria cerebral média surge da artéria basilar via artéria comunicante posterior. O segundo padrão é o adulto, em que artérias cerebrais anteriores e médias são irrigadas pela artéria basilar por meio das artérias comunicantes posteriores. E no terceiro padrão, mais raro, anastomoses transcranianas se desenvolvem do sistema carotídeo externo, da artéria carótida interna contralateral ou de vasos primitivos(5,6).

Em geral, a agenesia da ACI é achado incidental em exames de cabeça e pescoço, como estudo Doppler, TC ou ressonância magnética. Entretanto, alguns pacientes podem ter alterações, sobretudo com a progressão da doença aterosclerótica. A ausência da ACI está também associada a um aumento na incidência de aneurismas cerebrais, em torno de 25-35%, em comparação com 2-4% na população em geral. Pode estar associada, menos comumente, a atraso do desenvolvimento neuropsicomotor e agenesia do corpo caloso, principalmente em pacientes com agenesia carotídea bilateral(7,8). Além disso, essa anomalia tem importante implicação durante planejamento e realização de endarterectomias e cirurgias transesfenoidais da hipófise. No caso relatado, a paciente não apresentava aneurismas ou outras malformações associadas.

Conclui-se, portanto, que a agenesia da ACI é rara e geralmente assintomática, mas o exame minucioso do sinal vascular na ressonância magnética e dos canais carotídeos na TC, em busca de estenoses (justificando queixas neurológicas comuns), pode levar à descoberta dessa anomalia, que, apesar de assintomática, pode estar associada a outras doenças potencialmente graves.


REFERÊNCIAS

1. Lie TA. Congenital anomalies of the carotid arteries. Amsterdam: Excerpta Medica; 1968.

2. Padget DH. The development of the cranial arteries in the human embryo. Contrib Embryol. 1948;32:207-62.

3. Kahraman AS, Kahraman B, Ozdemir ZM, et al. Congenital agenesis of right internal carotid artery: a report of two cases. J Belg Soc Radiol. 2016;100:48.

4. Janicki PC, Limbacher JP, Guindo FC Jr. Agenesis of the internal carotid artery with a primitive transsellar communicating artery. AJR Am J Roentgenol. 1979;132:130-2.

5. Naeini RM, De J, Satow T, et al. Unilateral agenesis of internal carotid artery with ophthalmic artery arising from posterior communicating artery. AJR Am J Roentgenol. 2005;184:571-3.

6. Dinç H¸ Alioglu Z, Erdöl H, et al. Agenesis of the internal carotid artery associated with aortic arch anomaly in a patient with congenital Horner''s syndrome. AJNR Am J Neuroradiol. 2002;23:929-31.

7. Neves WS, Kakudate MY, Cêntola CP, et al. Agenesis of the internal carotid artery: a case report. Radiol Bras. 2008;41:63-6.

8. Jeong SH, Hong HS, Park S, et al. Congenital absence of the internal carotid artery. J Soonchunhyang Med Sci. 2010;16:9-15.










1. Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), Uberaba, MG, Brasil; a. https://orcid.org/0000-0002-0213-1165
1. Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), Uberaba, MG, Brasil; b. https://orcid.org/0000-0002-2541-5400
1. Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), Uberaba, MG, Brasil; c. https://orcid.org/0000-0001-6722-2458


Correspondência:
Dra. Eduarda Lemes Dias
Universidade Federal do Triângulo Mineiro
Avenida Frei Paulino, 30, Nossa Senhora da Abadia
Uberaba, MG, Brasil, 38025-180
E-mail: duda.lemes@hotmail.com
 
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