Radiologia Brasileira - Publicação Científica Oficial do Colégio Brasileiro de Radiologia

AMB - Associação Médica Brasileira CNA - Comissão Nacional de Acreditação
Idioma/Language: Português Inglês

Vol. 52 nº 4 - Jul. / Ago.  of 2019

CARTAS AO EDITOR
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Page(s) 272 to 278



Migração transmural de gossipiboma: uma causa rara de obstrução intestinal

Autho(rs): Isa Félix Adôrno1; Rômulo Florêncio Tristão Santos2; Andrea Cylene Tamura3; Edson Marchiori4; Thiago Franchi Nunes5

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Sr. Editor,

Paciente do sexo masculino, 83 anos, deu entrada na unidade de pronto-atendimento referindo dor abdominal difusa, náuseas com vômitos biliosos e distensão abdominal com início há cerca de um mês, com piora há três dias. Perda ponderal de 6 kg no período. Relatou colecistectomia prévia há seis meses. Exame físico: abdome semigloboso, com ruídos hidroaéreos aumentados, doloroso à palpação superficial em mesogástrio, sem visceromegalias e/ou massas palpáveis. Endoscopia digestiva alta mostrou câmara gástrica ectásica, com grande quantidade de resíduos alimentares não digeridos, piloro lateralizado, retraído e estenosado, que não permitiu passagem do aparelho para o bulbo duodenal. Radiografia de abdome (Figura 1A) mostrou dilatação acentuada da câmara gástrica, com nível hidroaéreo e imagens serpiginosas radiopacas localizadas na região do duodeno, características de corpo estranho (gossipiboma). Tomografia computadorizada de abdome com contraste intravenoso (Figuras 1B e 1C) confirmou os achados radiológicos, com melhor caracterização da massa intraluminal duodenal (primeira porção), com fios metálicos no interior, determinando obstrução intestinal alta e realce de parede duodenal e gástrica, por provável reação inflamatória. Ausência de pneumoperitônio, bem como de coleções/abscessos cavitários. O paciente foi submetido a laparotomia, com duodenorrafia e jejunostomia alimentar. No intraoperatório confirmou-se corpo estranho (gossipiboma – Figura 1D) localizado na primeira porção duodenal, determinando obstrução ao fluxo de saída do estômago e gastrectasia.


Figura 1. A: Radiografia simples de abdome (paciente em posição supina) demonstrando acentuada distensão do estômago (asterisco) e material contendo linhas hiperdensas serpiginosas localizado na região da primeira porção duodenal (setas). B,C: Tomografia computadorizada de abdome pós-contraste, aquisição coronal (B) e projeção de intensidade máxima (C) confirmando os achados radiográficos e caracterizando melhor a massa intraluminal duodenal (setas), heterogênea, com gás no interior e estruturas densas lineares, bem como o espessamento da parede gástrica e bulbo duodenal. D: Peça cirúrgica mostrando compressa (gossipiboma) com impregnação por conteúdo bilioso (coloração amareloesverdeada).



Afecções abdominais agudas têm sido motivo de recentes publicações radiológicas brasileiras(1–4). A incidência de gossipibomas varia entre 0,02% e 0,1% de cirurgias intra-abdominais(5). A migração transmural do gossipiboma é extremamente rara, geralmente ocorrendo no intestino, bexiga e tórax. A expulsão espontânea foi relatada em poucos casos e o intervalo médio entre a cirurgia e o tempo do diagnóstico foi 2,2 anos(5,6).

Há dois tipos de reações ao corpo estranho descritas na literatura: fibroblástica e exsudativa. A resposta fibrosa asséptica resulta em adesão, encapsulação e granuloma, geralmente permanece assintomática ou causa sintomas progressivos crônicos ao longo de meses a anos. A reação exsudativa provoca formação de cisto ou abscesso que pode fistulizar para vísceras adjacentes, e nesses casos os sintomas são mais graves(5,7). O aumento da pressão intra-abdominal causada pelo gossipiboma pode causar necrose parcial ou total da parede intestinal(6,7). Os fatores de risco associados ao aumento da incidência de gossipiboma incluem procedimentos cirúrgicos de emergência, prolongados, mudança não planejada no curso de um procedimento, envolvimento de mais de uma equipe cirúrgica e pacientes com maior índice de massa corporal(7).

Os achados de imagem antes da migração transmural são variáveis, dependendo da natureza da esponja, do seu marcador radiopaco, do tempo que o corpo estranho está presente e da natureza da reação. A tomografia computadorizada pode demonstrar uma massa mal delimitada, heterogênea, com presença de fios metálicos, contendo ar, com aspecto espongiforme. O realce da borda pode ocorrer após a administração do meio de contraste, que provavelmente se deve a inflamação na parede adjacente à massa. Uma cápsula com alta densidade, com centro de baixa densidade, é encontrada na maioria dos casos e pode causar dificuldade diagnóstica entre abcessos e hematoma. A calcificação é um achado raro e é mais comum em casos de longa data(5).


REFERÊNCIAS

1. Miranda CLVM, Sousa CSM, Cordão NGNP, et al. Intestinal perforation: an unusual complication of barium enema. Radiol Bras. 2017;50:339–40.

2. Pessôa FMC, Bittencourt LK, Melo ASA. Ogilvie syndrome after use of vincristine: tomographic findings. Radiol Bras. 2017;50:273–4.

3. Niemeyer B, Correia RS, Salata TM, et al. Subcapsular splenic hematoma and spontaneous hemoperitoneum in a cocaine user. Radiol Bras. 2017;50:136–7.

4. Naves AA, D’Ippolito G, Souza LRMF, et al. What radiologists should know about tomographic evaluation of acute diverticulitis of the colon. Radiol Bras. 2017;50:126–31.

5. Williams M. Transduodenal migration of a retained surgical swab causing small bowel obstruction—imaging findings in the acute setting and prior to onset of symptoms. J Radiol Case Rep. 2015;9:43–8.

6. Lal A, Gupta P, Sinha SK. An unusual cause of intestinal obstruction in a young female. Transmural migration of gossypiboma with small bowel obstruction. Gastroenterology. 2015;149:e7–8.

7. Rafie BA, AbuHamdan OJ, Trengganu NS. Intraluminal migration of retained surgical sponge as a cause of intestinal obstruction. J Surg Case Rep. 2013;(5).










1. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Campo Grande, MS, Brasil; https://orcid.org/0000-0002-2106-1211
2. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Campo Grande, MS, Brasil; https://orcid.org/0000-0002-8679-7369
3. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Campo Grande, MS, Brasil; https://orcid.org/0000-0002-3600-7197
4. Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil; https://orcid.org/0000-0001-8797-7380
5. Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Campo Grande, MS, Brasil; https://orcid.org/0000-0003-0006-3725

Correspondência:
Dr. Thiago Franchi Nunes
Avenida Senador Filinto Müller, 355, Vila Ipiranga
Campo Grande, MS, Brasil, 79080-190
E-mail: thiagofranchinunes@gmail.com

Recebido para publicação em 26/10/2017
Aceito, após revisão, em 7/12/2017
 
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